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15.8.14

Deus Existe? O Que e Quem é Ele? - Parte 2


2 - O Que é Deus?


Tendo estabelecido de forma plena a possibilidade da existência de Deus a partir da irrefutabilidade da nossa própria existência podemos prosseguir com o nosso inquérito passando para a seguinte questão em nível de importância nesta matéria, que é aquela que diz respeito a própria natureza de Deus. Não a que pergunta sobre as suas qualidades ou existência individual caso ele exista: “QUEM é Deus?", “QUAL o Seu nome?", mas aquela que se refere ao seu gênero ou aos seus atributos essenciais caso ele deva existir: "o QUE é, ou deveria ser, Deus?". A definição que diz respeito à primeira questão, a resposta para a pergunta “QUEM é?”, supõe, necessariamente, a existência de Deus; a definição que se relaciona com a segunda questão, a resposta para a pergunta “o QUE é?”, pode ser buscada sem se supor que Deus deva existir. Porém, a discriminação das qualidades de Deus, “QUEM” ele é, é secundária neste inquérito a respeito de sua existência quanto ao fato de Sua divindade, o “QUE” ele é, pois esta é estabelecida a partir de seus atributos, os quais pertencem ao seu gênero, e não a partir de suas qualidades, que pertencem à sua pessoa, como já veremos.

Todos os seres possuem qualidades, atributos e potência. A diferença entre umas e outros é que as qualidades que podemos possuir são antitéticas absolutas, quer dizer, cada uma delas divide-se em dois contrários que se excluem absolutamente e também dependem de uma escolha consciente por um dos dois - elas não nos são impostas pela natureza, pela vontade divina ou pelo destino. Tudo aquilo que pode ser resultado de uma escolha no âmbito das ações humanas são qualidades absolutamente antitéticas, e não admitem ser misturadas ou sintetizadas. Por exemplo, uma mesma ação pode conter elementos bons e ruins, mas os elementos bons são bons absolutamente, e os ruins são ruins absolutamente, embora a própria ação possa ser analisada e decomposta nas suas partes antitéticas. Tais qualidades são, por exemplo, a bondade e a maldade, a justiça e a injustiça, a impaciência e a longanimidade. Qualidades são coisas absolutas que adquirimos através das escolhas que fazemos e que não podem ser sintetizadas: não é possível misturar certa quantidade de bem com uma de mal e criar uma qualidade intermediária entre o bem e o mal. Já, quanto aos atributos, eles não são antitéticos, mas relativos, assim como, por exemplo, a altura não é o contrario da baixeza, mas é relativa a esta – alguém que é alto em relação a uma pessoa é também baixo em relação a uma outra; e, além disto, não temos poder completo de escolha sobre os nossos atributos - na maioria das vezes eles nos são impostos por Deus ou pela natureza. Alguns atributos, como a força física, podem ser adquiridos ou desenvolvidos. Outros, como a nossa altura, não podem. Os atributos podem ser objetos de uma síntese, já que são em si mesmos relativos. É possível, por exemplo, misturar água fria com água quente e produzir água morna. A dialética de Hegel comete este erro de querer sintetizar qualidades, sendo que isto somente pode ser realizado com atributos.

O ser consciente, em si mesmo, no seu núcleo substancial primordial composto de atributos dados por Deus e pela natureza, apresenta somente uma potencialidade para agir, e esta potencialidade, variando de uns para outros, é que determina a principal diferença entre os seres de uma mesma espécie. Quando, surgindo a oportunidade, o ser age fazendo escolhas adquire qualidades e estas se incorporam ao ser primordial formando a personalidade, que é o que subsiste se retirarmos os atributos exclusivamente físicos, adquiridos ou incorporados. Da interação do ser com o seu universo ele adquire ou são-lhe incorporados outros atributos, além dos originais. Alguns atributos são naturais, tais como a forma física que distingue os seres com respeito à raça, gênero, etc. Outros são contingentes, como a força física que alguém pode adquirir através da prática de exercícios. Se admitirmos que possuímos dois tipos de existência, um natural e outro supranatural, podemos conceder que enquanto permanecemos no plano físico os atributos que a nós estão incorporados pela vontade de Deus e através da natureza fazem parte da nossa substância temporariamente. A substância de um ser incorpora tudo o que existe naquele ser, de qualidades e atributos, num determinado momento. Já com respeito a Deus devemos admitir sua completude, com a coexistência sempiterna da potência, das qualidades e dos atributos na Sua substância imutável.

Examinando a história da humanidade do ponto de vista de suas crenças com respeito a divindade observa-se que, em todas as investigações filosóficas sobre a natureza de Deus que não se valem da observação direta da própria atuação divina ou de sua auto revelação mas procuram  desenvolver a questão através de uma investigação metafísica, os pesquisadores limitam-se a tentar encontrar uma resposta para as suas  indagações procurando estabelecer o conhecimento a respeito de Deus a partir de seus atributos possíveis, estabelecendo um padrão do que significa para nós a definição ou essência de Deus e deixando de lado a investigação de sua própria existência particular ou substância, pois as respostas para a primeira questão são mais fáceis de serem obtidas. Quanto a sua existência particular esta só pode ser apreendida a partir de uma revelação partindo da própria divindade ou observando-se de forma empírica a sua atuação no mundo. Sendo a pergunta a respeito da substância de Deus, aquela que se interroga sobre QUEM ele é, de um tipo cuja resposta se encontra além do âmbito de uma investigação filosófica como esta, que utiliza o raciocínio sintético, só podendo ser respondida analiticamente, devemos então continuar tentando encontrar as respostas que se relacionam com a outra questão, aquela que se mostra passível de ser respondida filosoficamente: "o QUE é Deus?" Como defini-lo com respeito aos seus atributos principais? Quais são os atributos que fazem com que o seu possuidor seja considerado como sendo Deus, necessariamente?

Primeiramente, devemos compreender que Deus não é deus por causa de sua substância, que envolve as suas qualidades, mas sim por causa de sua essência, que se refere somente aos seus atributos. Se desejarmos compreender Deus desde um ponto de vista filosófico devemos ter este fato bem claro em nossas mentes, ou seja, que a nossa investigação deve restringir-se à etapa que busca estabelecer os atributos (ou o atributo) indispensáveis para que um ser seja considerado como deus, e que a existência ou substância de Deus relaciona-se também com as qualidades de sua personalidade – se ele é bom ou mau, justo ou injusto, longânime ou impaciente, etc.

Kant não chegou a cometer um erro, porém desviou a questão do seu objetivo mais alcançável, já que se pode tentar compreender Deus racionalmente tanto procurando saber “QUEM” ele é quanto tentando estabelecer o “QUE” ele é. A primeira investigação está certamente além das limitações de nossa razão pura, e para avançarmos nela dependemos tanto da análise das manifestações de Deus no âmbito da realidade na qual existimos (se é que tais manifestações existem e podem ser encontradas), quanto de Suas revelações a respeito de Si mesmo. Mas a segunda investigação encaixa-se perfeitamente dentro de nossas possibilidades racionais.

Kant disse que preferia viver na ilha da razão a aventurar-se no oceano da metafísica. Com isto quis significar que poderia, utilizando somente a faculdade de sua razão pura, conhecer tudo o que houvesse na ilha, mas quanto ao que havia no oceano circundante não poderia ter a menor ideia a não ser uma sensação de desconfiança diante do desconhecido. Segundo ele pensava nossa razão, lançada no mar da especulação metafísica, é apenas uma humilde jangada incapaz de avançar em meio às ondas que se alteiam na escura noite oceânica. Melhor dito, é uma jangada que nem mesmo pode se fazer ao mar, tal a sua fragilidade para enfrentar o desafio além da praia. A única coisa que ela pode se permitir na posição onde se encontra atualmente é admitir que existe um oceano além de si, uma vez que chegou por si mesma à conclusão de se achar em uma ilha. Pois uma ilha sempre pressupõe a existência de um oceano ao seu redor. Kant provou ou tentou provar que não dispomos de meios cognitivos para ir além da realidade em que vivemos confinados, havendo estudado o funcionamento da razão humana e de seus instrumentos mais poderosos. A principal conseqüência da teoria kantiana da razão pura é que Deus estando fora da ilha desta razão, habitando no oceano desconhecido, não pode ser estudado por aquela de maneira alguma, não pode tornar-se jamais um de seus objetos. Portanto, qualquer especulação a respeito da natureza do Ser Supremo não tem validade alguma, pois Deus está fora do alcance da razão do ser humano. Esta é a mais importante afirmação do kantismo, dadas as conseqüências que dela se seguem.  No entanto Kant foi coerente ao afirmar dentro do contexto de sua teoria que também não podemos fazer nenhuma afirmação absoluta a respeito da inexistência de Deus. Ou seja, esta seria para nós uma questão eternamente em aberto. Uma vez que, de acordo com o próprio Kant, estamos completamente circunscritos em uma ilha e existe um oceano além deste confinamento, é possível que lá, oculto em algum lugar, protegido das nossas especulações pela escuridão das ondas altaneiras, Deus se encontre presente, inalcançável por nós para toda a eternidade.

O primeiro problema que surge com a teoria da razão pura kantiana com relação ao conhecimento da existência de Deus é esta contradição, que se torna evidente, entre uma faculdade tão limitada a ponto de não poder formar nenhum juízo de valor metafísico e a afirmação que ela faz da existência de um território além do seu alcance. Se a razão é assim tão absolutamente limitada ao confinamento em sua própria ilha como ela pôde chegar a afirmar a existência, além do seu alcance, de uma realidade metafísica - como ela pôde ver o mar que a convenceu de ser uma simples ilha? Como podemos afirmar a simples existência de algo que está absolutamente fora de nosso alcance cognitivo, mesmo fazendo a ressalva que não nos é possível dar deste algo a mais elementar descrição? Se podemos fazê-lo então fica comprovado que este algo está, pelo menos até certo ponto ainda não delimitado, disponível a investigação com o uso de nossas faculdades mentais. Em uma realidade tão delimitada como é a da teoria kantiana do conhecimento a simples afirmação da possibilidade da existência de um universo metafísico além daquele que se pode conhecer surge do nada absoluto, como a mais metafísica das especulações. Tal afirmação aparece de maneira tão misteriosa a ponto de só se poder formar com ela um paralelo na teoria de que o universo surgiu também abruptamente ex nihilo. De acordo com suas próprias conclusões Kant não tinha nenhuma base para afirmar que a razão se encontra em uma ilha, pressupondo a existência de um oceano ao seu redor. Esta é a primeira contradição do kantismo.

O segundo grande problema com a teoria kantiana do conhecimento é que Kant tenta fazer-nos aceitar a premissa de que a razão, no seu questionamento sobre a existência de Deus, dirige-se exclusivamente para uma região inacessível aos seus instrumentos, a da especulação metafísica de um universo além do seu alcance. Esta afirmação, como vimos acima, não tem base dentro da lógica kantiana de uma razão pura limitada. A verdade é que a razão humana não tem nenhum direito de por si mesma fazer qualquer afirmação especulativa, ou de buscar qualquer conhecimento além da área que está ao seu alcance – o que Kant também afirma, e faz de tal afirmação a própria razão de ser de suas teorias. Mas ele foi sofismático ao buscar arduamente comprovar uma premissa verdadeira, a da limitação da razão, e depois de estabelecida utilizá-la para apresentar uma falsa conclusão. Tal conclusão é de que as afirmações da razão a respeito de questões metafísicas são todas falsas, pois para obtê-las ela se aventura em um campo onde não tem nenhuma condição de obter qualquer conhecimento. Com isto Kant desvia nossa atenção do verdadeiro rumo que nossos questionamentos devem tomar e tem tradicionalmente tomado para comprovar racionalmente a existência divina. Pois na verdade a razão não busca nem deve buscar tal comprovação no oceano da metafísica, mas sim no território perfeitamente explorável da ilha em que está confinada. Todas as afirmações importantes a respeito de Deus que já foram feitas apoiaram-se em evidências encontradas dentro do universo em que vivemos, seja observando-se o mundo físico ou o psicológico. Portanto a nossa razão tem todo o direito e, ainda mais, o dever de percorrer sua própria ilha com os olhos abertos a procura de qualquer evidência da existência do ser supremo.

O terceiro problema que surge com a teoria kantiana da razão e estreitamente relacionado com os anteriores é aquele que decorre de uma afirmação que o próprio Kant não faz mas deixa implícita, porque se tal afirmação não estivesse pressuposta em todas as suas conclusões elas não teriam valor algum. Ao estabelecer limites para a capacidade de nossa faculdade de conhecimento e ao colocar o conhecimento da existência de Deus fora destes limites Kant pressupõe e até mesmo afirma que nós estamos, inexoravelmente, impossibilitados de comprovar esta existência. Entretanto, em conveniência com as suas pressuposições, deixa de fazer a admissão fundamental de que caso Deus exista, mesmo estando fora do âmbito de nossas pesquisas racionais (já que não podemos romper a barreira das limitações da nossa razão para chegar onde ele se encontra), nós mesmos não estamos fora do alcance da Sua capacidade de comunicar-se conosco e, por este motivo, podemos conhecê-lo sempre que ele se quiser revelar a nós. Deus não está ao nosso alcance mas nós estamos ao alcance dele. Kant, porém, nem mesmo levou em consideração esta possibilidade. Se Deus é deus para nós e temos alguma importância para ele podemos ter certeza de que ele pode estabelecer comunicação conosco sempre que assim desejar, habilitando-nos para conhecê-lo e a Sua realidade metafísica na extensão em que julgar tal conhecimento conveniente aos seus propósitos.

Kant afirmou e provou que não podemos saber por nós mesmos quem é Deus e fechou a questão, como se a nossa investigação a respeito de Deus se limitasse à busca de sua personalidade particular, quer dizer, de suas qualidades, e não pudesse dirigir-se para a determinação de Seus atributos possíveis. Indo por nossa conta nesta nova direção podemos perceber facilmente que sendo considerado como Deus um ser que possui atributos (ou algum atributo decisivo) superiores aos de todos os outros seres que habitam o mesmo universo, os quais seres são afetados por esta superioridade devendo assumir alguma atitude correspondente a sua inferioridade, é impossível que Deus seja deus em relação a si mesmo, por maior que seja o seu poder. Logo, Deus não é deus, atualmente, para si mesmo, mas sim para os outros. Percebe-se então que a premissa número um em relação ao conhecimento de Deus nos diz que ele não é Deus para os outros em razão de sua substância ou existência, mas sim de sua essência, a qual é formada por seus atributos. E a premissa número dois é a que nos diz que ele não é Deus para si mesmo atualmente, somente para os outros seres.

Em seguida, o que se necessita primeiramente no prosseguimento de nosso inquérito é de uma definição satisfatória do ser de Deus conforme os seus atributos – a sua própria essência. E isto em relação aos outros seres que habitam o mesmo universo.  A definição mais corriqueira, adotada pela imensa maioria das pessoas, quanto ao que Deus é ou deveria ser é aquela que o vê como o imutável e onisciente criador de todas as coisas. Todas estas palavras se referem a qualidades. Tais características, porém, podem ou não fazer parte da definição divina e despertam a nossa desmedida admiração – mas não são a característica, ou atributo, que realmente faz com que um ser seja considerado como deus num universo onde existem outros seres. O que, na verdade, num tal universo caracteriza plenamente um ser como deus é a dimensão do seu poder. E o ser mais poderoso é sem dúvida aquele que tem mais condições de conservar a própria existência e ao mesmo tempo decidir sobre a conservação da existência dos outros seres que habitam o mesmo universo. De tal ser todos estão na dependência, a tal ser todos devem prestar reverência e serviço, condições que só podem ser descritas pela palavra grega “latria” (serviço divino). Uma vez que a grande maravilha é a própria existência, a suprema qualidade de qualquer ser é a de garantir a sua própria existência e também de decidir sobre a existência dos outros seres. Aquele que possui estas qualidades é quem merece, sem a menor sombra de dúvida, que lhe seja conferida a dignidade de ser considerado Deus.

Imaginemos um ser o qual possua vários atributos admiráveis, tais como a suprema onisciência, a maior beleza, insuperável grandeza e bondade, e muitos outros semelhantes, mas que não tenha controle absoluto sobre a conservação de sua própria existência. Ou seja, que haja um outro ser o qual, seja por alguma característica própria ou por estar no comando de um exército que supere o primeiro ser em poder pela união de seus membros, possa decidir sobre a continuidade da sua existência, podendo eliminá-la se assim o desejar. Ou se isto não for possível (caso todos os seres naquele universo fossem eternos e indestrutíveis) torná-la a mais sofredora e limitada possível, condição semelhante ao aniquilamento, uma vez que a uma vida de intenso e insopitável sofrimento os seres humanos racionais quase sempre preferem a própria morte. O primeiro ser deveria então considerar o segundo como sendo o seu verdadeiro deus, reverenciando-o e servindo-o com o intuito de garantir a continuidade daquilo que é para cada um a coisa mais importante: a própria existência livre de dor insuportável. Desta forma não podemos considerar como deus alguém que tenha a continuidade da sua existência no arbítrio de um outro ser. O último é que teria de ser, verdadeiramente, considerado como sendo deus do primeiro.

Logo, a definição correta de Deus é a seguinte: "Deus é aquele que tem mais poder sobre a sua própria existência e a dos outros". E nem mesmo é necessário que este poder que ele tem sobre a sua própria existência se estenda ao ponto de garanti-la como um bem eterno para que seja considerado como Deus. Para a consecução deste fim é suficiente que em determinado momento e circunstância ele possua o poder absoluto para decidir sobre a continuidade da sua própria existência e da dos outros seres (também a dos outros, pois se o poder que ele tem se limitasse ao âmbito da sua própria existência seria uma vantagem inestimável para ele porém ninguém se sentiria obrigado a prestar-lhe reverência e culto). Ele criou os outros seres justamente porque desejou ser deus para os outros – atualmente. Ele não é deus para Si mesmo, uma vez que não pode temer a Si mesmo, e um deus deve ser temido. Como diríamos então que Deus teme a Si mesmo, uma vez que o inferior teme o superior, e para que Deus a si mesmo se temesse deveríamos admitir que uma parte de Sua personalidade teria de ser inferior à outra?

Sendo assim é impossível que Deus não exista. Pois não havendo ninguém mais poderoso o ditador que decide sobre a vida de um povo também será o seu deus. Mas, certamente, havendo alguém acima dele e que tenha poder sobre a sua existência, e também avalize as suas decisões sobre a vida das pessoas que estão sob o seu poder, então aquele será o deus real tanto de um como de outros.

Desta forma, chegamos a conclusão que o sentimento mais básico de um ser em relação aquele que considera como sendo o seu deus tem de ser o temor que se relaciona com a possibilidade da perda da própria existência. Se a existência é a coisa mais maravilhosa e o que devemos preservar em primeiro lugar, e aquilo que devemos temer acima de tudo é a sua perda, então este temor se estende automaticamente aquele ser que detém o poder absoluto sobre a continuidade mesma daquela existência. No universo que conhecemos existem seres bons e maus em variados graus entre estas duas qualidades. Se alguém fosse considerado deus por possuir qualidades e atributos admiráveis porém o seu poder fosse limitado em relação aos outros seres, ele sempre teria a sua existência ameaçada por aqueles que fossem dotados de más intenções.

Além disto percebe-se que na definição de deus além de ele dever ser aquele que comanda mais poder sobre a sua própria existência e a dos outros seres, também deve ser-lhe acrescentado o atributo de poder ser propiciado por aqueles que podem ter a sua existência eliminada ou limitada por ele - pois se não fosse assim ele deveria ser considerado apenas como uma fonte inesgotável de temor, e este sentimento teria de ser a única forma de relacionamento dos outros seres com ele. Porém, junto com o temor devido ao ser que é deus, para que ele mereça este epíteto, deve estar acoplada a possibilidade de que possa ser propiciado com vistas a assegurar aqueles que o propiciam a certeza de continuarem existindo baseados exclusivamente na eficácia de suas propiciações. Desta forma, este ser que é merecedor de temor tem de possuir, para ser considerado deus, os atributos da consciência e da inteligência, pois se assim não fosse poderíamos ter de considerar como deus uma força qualquer da natureza – tais como um vulcão ou uma fera muito perigosa. Mas, no primeiro caso, tratando-se de seres inanimados, de que maneira poderíamos propiciá-los para que nos fossem favoráveis se não possuem consciência? E no segundo, como acreditaríamos que uma fera irracional poderia ser propiciada? Como confiaríamos na sua boa vontade para conosco? Porém, tratando-se de um ser consciente dotado de inteligência é possível que conheçamos o suficiente da sua personalidade para termos certeza de que ele saberá corresponder a nossas atitudes que serão sempre baseadas naquilo que ele prescrever para nós, sendo misericordioso e permitindo-nos continuar existindo.

Tal é a base mais sólida do nosso relacionamento com o ser supremo, pois é nesta base, unicamente, do temor e nas atitudes que este temor prescreve que se assenta a nossa consideração da sua pessoa como sendo Deus. A partir desta base o relacionamento se constrói sobre as qualidades particulares daquele ser. Nós o amaremos se ele for bom – mas não poderemos exigir que o seja. Se assim o desejar poderá ser mau sem deixar de ser Deus. O mesmo acontecerá com respeito às outras qualidades antitéticas absolutas que poderão fazer parte da sua personalidade: justiça e injustiça, compaixão e impiedade, ira e longanimidade... etc.

Descobrimos então que ao atributo de ser temível corresponde a atitude de temor respeitoso naqueles que temem pela continuidade de sua existência, e ao atributo da inteligência corresponde a atitude que leva o nome de propiciação, ou latria, e a qualidade de ser bondoso, misericordioso e sábio corresponde a atitude de adoração reverente. Todos os nossos sentimentos e atitudes em relação à Deus tem como base aquilo que ele é nos seus atributos e nas suas qualidades. Com respeito aos primeiros nossa principal atitude para com ele tem de ser o temor, uma vez que seus atributos fazem dele o ser mais poderoso do universo. Temos de esforçar-nos por descobrir tudo o que pudermos a respeito de sua personalidade para servi-lo da forma que lhe for mais agradável. Com respeito as suas qualidades nossas atitudes estarão relacionadas ao que elas mesmas forem. Se ele for bondoso para conosco, por exemplo, isto despertará a nossa gratidão, e se nos tratar de forma injusta mesmo assim não sentiremos revolta em nosso interior com relação á Sua pessoa, pois o temor absoluto que encherá a nossa alma relativamente aos seus atributos não permitirá o surgimento de sentimentos daquela espécie. Porém, neste caso, não o amaremos, pois só amamos aquilo que desejamos preservar e não temos este sentimento em relação a um poder que nos ameaça constantemente. A medida do seu poder além daquele que possui sobre a continuidade de nossas existências determinará a extensão da nossa admiração por ele, gerando em nossas consciências o sentimento chamado “reverência”. E assim por diante.

Neste capítulo tratou-se do QUE é Deus, sem nos desviarmos para a questão de QUEM ele é.

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