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18.1.13

Parábola de Dois Reinos

   Havia antigamente, em certo país oriental, um homem de grande sabedoria, já avançado em dias, o qual era considerado por seus concidadãos como um modelo de virtude, havendo dado inúmeras provas de dedicação à sua pátria, até mesmo com o sacrifício de seus bens pessoais, e arriscando a própria vida. Certo dia, andando pelos campos próximos à aldeia onde morava, ele encontrou uma caverna meio oculta por arbustos. Adentrando-a para desfrutar de sua sombra, percebeu ser ela bem maior do que julgara de início, e decidiu explorá-la, a fim de conhecer sua real dimensão.

   Providenciou ele uma tocha com um galho grosso e seco de árvore e adentrou a caverna, encaminhando-se para o seu interior. Deparou-se, surpreso, lá no fundo, com uma abertura de pequeno diâmetro na parede de rocha úmida através da qual podia passar confortavelmente. Introduziu-se na passagem, adentrando um túnel, e, após andar alguns metros, encontrou-se em uma câmara espaçosa. Examinando-a com atenção, descobriu ao fundo dela grande quantidade de enormes tonéis, uns ao lado dos outros. Aproximou-se, e, ao iluminá-los e olhar para dentro deles, quase não pôde acreditar na visão que se apresentava diante de seus olhos ofuscados: estavam os tonéis, todos eles, cheios quase até as bordas de pedras preciosas que lhe pareceram ser da mais alta qualidade. Encontravam-se, ali, diamantes, pérolas, safiras, esmeraldas... O velho homem calculou rapidamente que estava depositada naqueles tonéis uma fortuna que sobrepujava a riqueza toda do país onde vivia, se ela pudesse ser reunida em um só lugar.

   Retirando-se daquele lugar, o homem tratou logo de vender todos os seus bens, e, com o dinheiro apurado, comprou aquela campo através de uma oferta irrecusável, ficando de posse do tesouro escondido na caverna. Ciente de que o país do qual era cidadão atravessava um período de grande dificuldade, estando a maioria dos seus habitantes vivendo em profunda pobreza, a qual chegava mesmo as raias de uma miséria generalizada, decidiu utilizar a riqueza que lhe viera de forma tão inesperada às mãos para mudar definitivamente a sorte de seus patrícios, objetivo perfeitamente alcançável tal a magnitude da fortuna de que se fizera senhor.

   Entretanto, aquele homem sábio compreendia, e tal fato pesava-lhe no coração, que a situação deplorável a que chegara o seu país devia-se principalmente aos mesquinhos hábitos e práticas de seus compatriotas, os quais eram dados a toda sorte de vícios e artimanhas. Estavam sempre dispostos a ludibriarem uns aos outros, tendo sido, ao fim e ao cabo, derrotados e conduzidos à extrema miséria por sua própria desonestidade.

   Considerou, então, que não estaria de acordo com a suprema justiça simplesmente distribuir entre aqueles homens mal-intencionados o tesouro que havia adquirido, pois eles não eram, certamente, por si mesmo merecedores de tão grande dádiva. Por este motivo, concebeu um plano, de acordo com o qual aqueles que recebessem certa quantidade de pedras preciosas, suficiente para transformá-los em cidadãos abastados, teriam de demonstrar arrependimento de seu mal comportamento e uma confiança absoluta no seu benfeitor, isto é, nele mesmo. Tal confiança seria, por assim dizer, a chave que lhes abriria as portas para uma vida nova, servindo como um atestado de que eles ainda se mostravam dispostos a crer em algo, ou seja, na palavra de um único homem; como se estivessem prontos a admitir que a espécie humana ainda tivesse esperança; que ela possuía, ainda, uma chance de ser redimida de sua descrença e malignidade.      

   O plano foi arquitetado da seguinte maneira:

   Primeiramente, o sábio homem determinou certa quantidade de joias que seriam ofertadas a cada um que se mostrasse digno, por sua aceitação das condições que seriam por ele determinadas, de recebê-las. A quantidade seria igual para todos e suficiente para tornar um homem miserável em um homem rico num abrir e fechar de olhos. Somente três condições haveria que deveriam ser apresentadas a cada um a fim de qualificá-lo para receber aquela dádiva.

   Em primeiro lugar, todo aquele que desejasse ter a sua parte na riqueza oferecida deveria vender tudo o que possuísse, desfazendo-se dos seus bens e entregando o montante do dinheiro recebido pela venda para o seu benfeitor. Tal exigência era absolutamente a mesma para todos. Tanto aqueles que possuíam apenas uma velha túnica e um par de sandálias rotas, quanto aqueles que eram proprietários de terras, casas, jumentos, campos... todos deveriam, igualmente, vender tudo e entregar o valor obtido.

   E ninguém poderia reclamar de tal sistema, pois, independente do que cada um tivesse de vender, o que receberia em troca seria muitíssimo superior ao que deveria entregar. Até mesmo os homens mais ricos daquele país participariam com lucro substancial na transação, tal era o valor da quantidade de joias que havia sido destinada para cada um que aceitasse participar; e nem mesmo os cidadãos mais abastados estavam impedidos de participarem.

   Na verdade, tal sistema proporcionaria aos habitantes daquela terra a oportunidade de viverem em uma sociedade igualitária e rica, tal como se todos tivessem nascido de novo para uma vida melhor em um mundo ideal. Quando, afinal, a totalidade dos moradores do país tivesse entregado o valor de suas posses ao homem sábio, todos estariam igualmente abastados e satisfeitos, cada um não possuindo mais do que o seu próximo, independentemente de quem eram ou do que possuíam anteriormente.

   A segunda característica do plano era a condição de que cada pessoa só teria acesso a sua parte após a proposta ser apresentada para todos os habitantes do país, proporcionando a cada um a oportunidade de aceitá-la ou não. E para que esse resultado fosse atingido o mais rápido possível, o homem sábio determinou que todo aquele que viesse a concordar com as condições apresentadas receberia um documento com o seu selo particular, autorizando-o a ser, ele mesmo, um divulgador daquele plano. Poderia, então, apresentá-lo aos outros homens para que também estes o aceitassem e tivessem, igualmente, a oportunidade de serem seus divulgadores. Desta maneira, se o primeiro que concordasse com as condições do plano pudesse convencer um mínimo de dois outros homens a aceitá-lo, depois disso, estes dois conseguiriam persuadir outros quatro, estes quatro conseguiriam persuadir mais oito, e assim por diante, em progressão geométrica. Logo, após um curto espaço de tempo, todos estariam de posse de sua parte no tesouro e desfrutando a vida no reino do velho homem sábio.

   A terceira condição estipulava que os habitantes daquele país deveriam aceitar o velho homem sábio como seu rei, comprometendo-se a guardar as leis, ordenanças e normas, todas elas muito justas e apropriadas, que ele iria colocar em uma nova constituição para reger o país.

   Em seguida, para dar início ao procedimento de apresentar a sua proposta aos habitantes daquele país, o velho chamou seu único filho, incumbindo-o de ser o primeiro a desencadear o processo que terminaria por alcançar todas as pessoas daquela terra. Era, este seu filho, um jovem de grandes qualidades, em tudo semelhante ao seu pai, ao ponto de todos dizerem que quem o via era como se estivesse vendo o próprio pai, e a quem este último decidira colocar na posição de maior destaque em seu futuro reino. Enviou-o, pois, para o meio da plebe miserável que constituía a grande maioria de seus concidadãos e deixou-se ficar no seu campo, no qual construíra uma mansão maravilhosa, exatamente sobre o lugar onde estava a caverna com o tesouro escondido, a aguardar os resultados do seu projeto.

   Logo, tendo vestido uma velha túnica e calçado um par de sandálias rotas (para não parecer diferente das pessoas às quais iria apresentar-se), saiu o jovem para o meio do povo, a percorrer a terra. Tentava convencer os habitantes de seu país a venderem tudo o que possuíam e entregar-lhe o dinheiro recebido, a fim de tornarem-se proprietárias de uma parcela do tesouro de seu pai. Andava a pé pelas estradas empoeiradas e pedregosas, sob o sol escaldante das regiões áridas, sentindo na pele o frio das madrugadas ao relento, e dormindo, quase sempre, estirado sob alguma velha figueira à beira do caminho.

   Havendo ele partido cheio de alegria e confiança, logo constatou não ser das mais fáceis a tarefa que o pai lhe confiara. Pouquíssimas pessoas acreditaram, de inicio, em suas palavras, apesar de que, ao saberem da possibilidade de ficarem ricas de uma hora para outra, multidões o cercavam buscando ouvir o que ele tinha para dizer.

   Contudo, a grande maioria dos que iam até ele para escutar a sua mensagem não estava disposta a abrir mão de tudo o que possuía para ser merecedor de receber, no futuro, a sua quantidade de joias. Alguns até mesmo desconfiavam de que estavam sendo enganados, pois eram, eles mesmos, enganadores contumazes, não acreditando no que o jovem dizia a respeito das intenções de seu velho e bem conhecido pai, de quem ele era o retrato fiel e de quem trazia uma declaração confirmada com o seu selo particular, impossível de forjar. Outros, apesar de acreditarem, não queriam trocar o pouco que tinham no presente por algo que ainda iriam receber no futuro, pois estavam apegados demais as suas posses.

    Tal fato entristeceu muitíssimo aquele jovem, ao tomar conhecimento, tão claramente, da incredulidade de seus patrícios. Apesar disso, ele continuou em sua missão, determinado a cumpri-la de acordo com a vontade de seu pai. De início, conseguiu convencer somente doze homens, os quais transformou em um pequeno exército treinado para levar as boas novas até os rincões mais escondidos de seu país, após haverem passado um bom tempo em sua companhia, seguindo-o por onde quer que fosse e aprendendo dele tudo sobre o assunto. Estes homens iam e voltavam continuamente a ele, trazendo-lhe relatórios do progresso obtido. Contavam-lhe, amiúde, que haviam sido vítimas da descrença de seus concidadãos, colocados muitas vezes em prisões e até mesmo apedrejados pela turba ignara e desconfiada.

   Chegou, afinal, o dia em que o jovem deveria voltar e apresentar-se diante de seu velho pai, com o fim de lhe entregar um relatório contendo os resultados da missão que lhe fora confiada. O sábio homem muito se alegrou ao vê-lo aproximar-se, julgando haver chegado o tempo em que, de acordo com seus cálculos, poderia começar a distribuição de seu tesouro e transformar, desta forma, a sorte daquela terra, iniciando-se nela, a partir daquele momento, uma era dourada de abundância, paz e justiça. Entretanto, grande foi a sua decepção ao saber que somente um número pequeno de seus concidadãos havia crido nele e aceitado o seu oferecimento.

   Irou-se grandemente o velho sábio contra o seu próprio povo, por causa da sua incredulidade e dureza de coração. Então, chamando a sua presença os doze que haviam crido primeiramente, e junto deles o pequeno número de pessoas que eles haviam logrado convencer — não mais do que umas cento e vinte almas — encarregou-os de, atravessando o rio que demarcava a fronteira de seu país, dirigir-se à nação vizinha, levando-lhe a sua proposta. Era, esta nação, ainda mais miserável do que a sua, cujos habitantes viviam num estado completamente abjeto, embora fossem numerosos. Grassavam nesse país a fome e a imoralidade, ao ponto de eles trocarem seus próprios filhos entre si para comerem-nos, pois não tinham não tinham coragem, cada qual, de comer seu próprio filho. Desta forma, determinou o velho e sábio homem que os seus discípulos se dirigissem àquele país, apresentando seu plano a todos que encontrassem pelos caminhos e nas cidades, dando atenção especial aos mendigos, cegos, aleijados, mudos, enfermos e miseráveis de toda espécie.

   Imediatamente, partiram os homens, temendo em seus corações que a tarefa fosse muito difícil, pois raciocinavam: "Se em nossa própria terra não fomos acreditados, mas perseguidos, quão mais dura não será para nós a situação entre pessoas de outro país, no qual seremos estrangeiros sem direito algum?"

   Entretanto, logo o seu ânimo começou a mudar, pois muitas das pessoas que habitavam naquela terra acolhiam de bom grado a proposta que lhes era apresentada, em nada duvidando, mostrando-se, na verdade, maravilhadas e agradecidas com a possibilidade de melhorarem de forma tão radical as suas sortes. Quase todos os habitantes daquele país já conheciam a fama do velho homem sábio, e, ao ficarem sabendo ser ele quem lhes garantia o recebimento das joias, tratavam de vender rapidamente tudo o que possuíam, entregando o dinheiro recebido para os seus representantes. E assim, em pouco tempo, estes últimos já haviam conquistado um número suficiente de pessoas a fim de dar início a partilha do tesouro.

   Ao mesmo tempo em que os acontecimentos se desenvolviam de forma tão maravilhosa no país vizinho, do outro lado da fronteira algo terrível se passava.

   Tendo enviado os seus homens, o velho sábio sentiu seu coração constranger-se, amargurado por causa de seu próprio povo que havia desperdiçado tão esplêndida oportunidade de sair da miséria na qual se encontrava imerso. Resolveu, então, fazer uma última tentativa para ajudá-los, ordenando que seu filho fosse mais uma vez ao encontro de seus concidadãos, enquanto seus discípulos trabalhavam na nação vizinha.

   Obedientemente, partiu o jovem como da primeira vez, para anunciar as boas novas ao povo de sua terra. Desta feita, porém, trataram-no os homens daquele lugar pior do que da primeira vez, maltratando-o ao extremo e perseguindo-o de aldeia em aldeia, até que, havendo espalhado boatos perversos a seu respeito e lhe imputado a fama de subversivo, tendo chegado à mais importante cidade daquele país, as autoridades lançaram mão dele, colocando-o no cárcere e deixando-o lá, incomunicável, por vários dias. Logo, improvisaram um julgamento com o intuito de condená-lo, e, tendo arregimentado falsas testemunhas, as autoridades e o povo em conluio acusaram-no de sedição, sentenciando-o à prisão perpétua — o que, prontamente, trataram de executar, não sem antes açoitarem o jovem, furiosamente.

   Tendo chegado a triste notícia aos ouvidos do pai daquele jovem, ele ficou extremamente decepcionado e lamentou-se por vários dias, vestido de pano de saco e lançando cinzas sobre a própria cabeça, como era costume naquele país, e jejuando por todo o tempo. Quando já se ia definhando, chegaram os homens que tinha enviado à nação vizinha relatando o pleno sucesso que haviam alcançado no cumprimento de sua missão. Isto fez com que o velho homem se reanimasse, apesar de seu coração estar ligado ao filho detido na masmorra sombria e úmida onde se encontrava acorrentado. Então, havendo se alimentado um pouco, chamou os doze que haviam primeiramente crido, e falou-lhes: "Ide àquela terra de onde viestes a pouco e reparti a cada um dos seus habitantes que acreditaram na minha palavra a sua parcela do meu tesouro. Narrai-lhes, igualmente, a minha desventura, a ingratidão de meus concidadãos e o estado deplorável em que agora se encontra o meu amado filho".

   Então eles retornaram, imediatamente, pelo mesmo caminho por onde haviam passado antes, conclamando todos os portadores do documento selado que os qualificava como proprietários de uma parcela na fortuna do velho homem, e entregando-lhes a sua cota. Com isto, os naturais daquela terra se alegraram grandemente, pois seu infortúnio acabara e o futuro já não parecia ameaçador. Entretanto, ao serem informados da desgraça que sucedera ao seu benfeitor, entristeceram-se sobremaneira, indignando-se muito contra os habitantes do país vizinho.

   Depois disso, tomando conselho entre si, concluíram que não poderiam deixar de fazer tudo o que estivesse ao seu alcance a fim de ajudar aquele que tanto os havia beneficiado, mesmo que para isto tivessem de colocar em risco a sua própria existência. Logo, elegendo líderes dentre eles, trataram de formar um exército, colocando sobre si mesmos chefes de cem, de mil e de dez mil homens, e entregando o comando para os doze discípulos do velho homem sábio. Compraram também, com a contribuição voluntária que todos apresentaram do dinheiro que haviam recebido, armas sofisticadas, as mais eficientes que puderam encontrar em outros países mais adiantados, até mesmo para compensar o fato de haver dentre eles muitas pessoas com deficiências físicas, porquanto haviam atendido ao plano do velho homem grande quantidade de cegos, surdos, paralíticos e portadores de várias outras deficiências. Cada um contribuiu para os gastos com uma pequena parcela de sua fortuna recém adquirida.

   Bem armados e equipados, marcharam em direção ao país vizinho, atravessando a sua fronteira. Enquanto avançavam, iam conquistando, uma a uma, todas as cidades por onde passavam, escravizando seus habitantes; e matavam a todos os que lhes ofereciam resistência. Contudo, muitos dos habitantes daquele país, por aquele tempo, já haviam se arrependido de não haverem aceitado a oferta do velho homem sábio, estando cansados das dissoluções de seus compatriotas, e por este motivo eram hostilizados pelos outros. Havendo se reunido em um partido que se opunha àqueles, tinham sido por eles aprisionados, juntamente com o jovem, filho do velho homem. Saudavam, portanto, a chegada do exército que vinha para pôr um fim àquele sistema degenerado, desejando juntar-se a ele. Os homens chegaram, por fim, àquela magnífica cidade onde o filho do seu benfeitor se encontrava encarcerado, juntamente com os que se haviam arrependido. Levantaram um cerco contra ela, conclamando os seus habitantes à rendição, porquanto eles haviam decidido resistir, confiados na inexpugnabilidade do lugar onde viviam, que era cercado de altas e grossas muralhas, e nas grandes quantidades de alimento estocadas em seus armazéns. Tão confiantes estavam eles que enquanto a cidade permanecia sitiada entregavam-se de forma desenfreada aos prazeres espúrios que tanto amavam, realizando festas e banquetes nababescos que se prolongavam pelas noites e até o alvorecer, nos quais grandes quantidades de vinho e outras bebidas eram consumidas, e sob cujo efeito praticavam toda sorte de dissoluções e abominações.

   Enquanto o cerco se prolongava, o general dos sitiantes, havendo observado um rio que adentrava sob as muralhas, teve a brilhante ideia de desviar o seu curso e invadir a cidade pelo leito seco. Ordenou, então, a seus soldados que escavassem um canal a dois quilômetros de distância da cidade, fora das vistas de seus habitantes, próximo ao leito do rio e indo em direção a um grande lago que se havia secado completamente. Quando o canal já estava completamente escavado, numa noite em que na cidade as pessoas se divertiam em mais uma de suas intermináveis festas, os sitiantes abriram a separação que havia entre o rio e o canal, e as águas fluíram impetuosamente em direção ao lago vazio, que se foi enchendo gradativamente. E, quando o nível das águas já permitia a passagem tranquila de homens armados e equipados, sorrateiramente o exército adentrou a cidade, cujos habitantes, pegos totalmente de surpresa, entorpecidos que estavam pelo vinho e pela orgia, não esboçaram nenhuma reação apreciável. Em pouco tempo, a cidade estava nas mãos dos invasores, os quais trataram de ir logo até a fortaleza onde o jovem se encontrava detido, libertando-o de seus grilhões, e também os seus companheiros. Encontrava-se ele num estado deplorável, devido à fome e aos maus tratos que lhe haviam sido impostos; mesmo assim, alegrou-se muito em vê-los e ao ser inteirado de tudo o que havia acontecido.

   Depois disto, dirigiram-se à cidade onde morava o velho homem sábio, que se sentiu grandemente confortado e feliz por reencontrar o seu amado filho, são e salvo. Naquele mesmo dia, todos, de comum acordo, elegeram-no, ao velho homem, rei sobre aquele país que haviam conquistado, bem como sobre sua própria nação. Seu filho foi, então, colocado na posição de primeiro-ministro, o que lhe conferia poderes absolutos para governar a terra como bem quisesse.

   Ordenou, então, o rei que durante vários dias fosse celebrada uma festa de comemoração em todo aquele país e no país vizinho, para cuja realização destinou uma considerável parte de sua fortuna pessoal. E foi aquela uma festa magnífica, tal qual jamais havia acontecido em qualquer outro lugar ou época, nem jamais haverá! Milhares e milhares de bois, ovelhas e aves foram abatidos, frutas exóticas e saborosíssimas vieram, trazidas de distantes países em grandes quantidades, e havia vinho finíssimo em abundância como um rio a jorrar. Mandaram chamar em todas as terras conhecidas os mais talentosos músicos para alegrá-los enquanto durasse a comemoração.

   E quando celebravam aquela festa suntuosa, como nunca houve igual nem jamais haverá enquanto houver sol e lua, os naturais do país, que haviam sido conquistados, serviam-nos às mesas, abanavam-nos à sombra dos dosséis montados ao ar livre e carregavam-nos em liteiras adornadas, para onde quisessem ir.

   Tal situação perdura até os dias de hoje naqueles dois reinos, com os habitantes originais da terra a servirem os seus conquistadores, e estes a viverem regaladamente sob a direção do velho homem sábio e de seu filho amado. E tudo, na verdade, que lhes havia sido exigido para merecerem tão grandes dádivas, fora que cressem em sua palavra e aceitassem suas leis e ordenanças.

12.2.12

Sorvete Para a Alma

Sundae with a Cherry on Top

Na semana passada, levei meus filhos a um restaurante. O mais pequeno, de seis anos, perguntou se podia fazer uma oração de agradecimento. Baixamos nossas cabeças, e ele disse: "Deus é bom. Obrigado pelo alimento. E eu ainda agradeceria mais se a mamãe pedisse sorvete como sobremesa. Amém." 

Junto com as risadas dos circunstantes que estavam próximos eu ouvi a consideração de uma senhora: "É isto que está errado com este país. As crianças de hoje nem mesmo sabem como orar. Orando a Deus por sorvete! Eu nunca fiz isso." Tendo ouvido estas palavras, meu filho irrompeu em lágrimas, e disse-me: "Eu agi errado? Deus ficou zangado comigo?" Enquanto eu o encorajava dizendo que ele havia feito um bom trabalho, e que Deus, certamente, não estava zangado com ele, um senhor, já bem idoso, aproximou-se de nossa mesa. Ele piscou para meu filho, e disse-lhe: "Por acaso, eu sei que Deus acha que você fez uma grande oração." "Verdade?" meu filho perguntou. "Isso me deixa feliz!"

Então, de um jeito teatral, o homem sussurou (indicando a mulher cujo comentário havia começado a questão): "Pena que ela nunca orou a Deus por um pouco de sorvete. Um pouco de sorvete é bom para a alma, de vez em quando."

Naturalmente, eu comprei sorvete para os meus filhos no final da refeição. Meu filho pequeno olhou para a sua porção por alguns momentos e, então, fez algo que irei lembrar pelo resto da minha vida. Ele pegou o seu sorvete e, sem uma palavra, caminhou até a mulher e o colocou na sua frente. Com um sorriso no rosto, disse-lhe: "Isto é para você. Sorvete é bom para a alma, às vezes, e a minha já está se sentindo bem."

Autor desconhecido

Tradutor: José Cassais

Foto de SeRVe Photography

1.2.12

Pegadas na areia


Certa noite, eu sonhei um sonho.

Estava eu andando na praia com o meu Senhor, e através do céu escuro passavam cenas da minha vida. Para cada cena percebi dois pares de pegadas na areia; dois eram meus e dois eram do meu Senhor.

Quando a última cena da minha vida surgiu rápidamente diante de mim eu olhei para trás, para as pegadas na areia. Havia apenas um par de pegadas. Percebi que isto era sempre assim, nos momentos mais tristes e desesperadores da minha existência. Perceber isso incomodou-me bastante, e questionei o Senhor a respeito do meu dilema:

"Senhor, tu me disseste que se eu resolvesse te seguir irias andar e falar comigo por todo o caminho. Mas estou percebendo que durante as maiores tribulações da minha vida só há um par de pegadas. Eu não consigo entender porque, quando mais preciso de ti, tu me abandonas!"

Então, ele falou, suavemente: "Meu precioso filho, Eu te amo e nunca te deixarei; nunca, nem mesmo durante as tuas provações e testes. Quando você viu apenas um par de pegadas, foi então que eu te carreguei."

Margaret Fishback Powers, 1964

Traduçâo: José Cassais

8.4.11

Você confia em Seu sangue para limpar?

Certa noite, em um culto na igreja, uma jovem mulher sentiu o tocar de Deus em seu coração. Ela respondeu ao chamado de Deus e aceitou Jesus como seu Senhor e Salvador. 

Aquela jovem tinha um passado muito difícil, envolvendo álcool, drogas e prostituição. Todavia, a mudança em sua vida era evidente. Conforme o tempo passava, ela tornou-se um membro fiel da igreja. Eventualmente, ela se envolveu no ministério, ensinando a palavra de Deus às crianças. 

Depois de algum tempo, esta mulher jovem e fiel capturou os olhares e o coração do filho do pastor. A relação cresceu, e eles começaram a fazer planos de casamento. Aí foi que os problemas começaram a aparecer. Você vê, cerca de metade da igreja não achava que uma mulher com um passado como o dela era adequada para o filho de um pastor. 

A igreja começou a discutir e brigar sobre o assunto. Então, eles decidiram fazer uma reunião. Conforme as pessoas lançavam seus argumentos e as tensões aumentavam, a reunião foi ficando completamente fora de controle. A jovem, que se encontrava presente, ficou muito chateada com todas as coisas que estavam sendo trazidas sobre seu passado. Quando ela começou a chorar, o filho do pastor se levantou para falar. Ele não podia suportar a dor que estavam causando à sua futura espôsa. Ele começou a falar, e o seu depoimento foi da seguinte forma: 

"O passado da minha noiva não é o que está em julgamento aqui. O que vocês estão questionando é a capacidade do sangue de Jesus para lavar o pecado. Hoje, vocês tem colocado o sangue de Jesus em julgamento. Então... ele lava o pecado, ou não?" 

Logo, a igreja toda começou a chorar quando percebeu que eles tinham estado difamando o sangue do Senhor Jesus Cristo. 

Demasiadas vezes, mesmo como cristãos, trazemos o passado e o usamos como uma arma contra os nossos irmãos e irmãs. O perdão é uma parte muito fundamental do Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Se o sangue de Jesus não limpar a outra pessoa completamente então não pode purificar-nos da mesma forma! Se for esse o caso, então todos nós estamos com um monte de problemas. 

O que pode lavar meus pecados? Nada além do sangue de Jesus! 

"Lança teu fardo sobre o Senhor, e Ele te susterá. Ele nunca permitirá que o justo seja abalado." Salmo 55:23

Autor desconhecido

Tradução: José Cassais

22.5.10

A Bíblia e A Cesta de Carvão

Esta é a história de um velho que morava em uma fazenda, com seu neto. Todas as manhãs, bem cedo, o vovô ficava sentado à mesa da cozinha, imerso na leitura de sua velha Bíblia desgastada.

Seu neto, que o admirava e queria ser como ele, tentava imitá-lo da maneira que podia. Um dia, ele perguntou: "Vovô, eu tento ler a Bíblia como você, mas não entendo quase nada, e o que entendo eu esqueço assim que fecho o livro. De que adianta, então, ler a Bíblia?"

O avô, calmamente, apanhou uma cesta e terminou de colocar o carvão que estava nela no fogão, esvaziando-a; virou-se para o neto e disse: "Leve esta cesta de carvão até o rio e a traga de volta com água." O menino fez tal como lhe fora dito, todavia, como a cesta tinha uns pequenos furos, muita água vazou antes que ele pudesse voltar para casa.

O avô riu, e disse: "Você vai ter que se mover um pouco mais rápido da próxima vez"; e o mandou de volta para o rio com a cesta, a fim de tentar novamente.

Desta vez, o menino correu mais rápido; entretanto, mais uma vez a cesta estava quase vazia antes que ele pudesse alcançar a casa. Sem fôlego, disse ao avô que era "impossível carregar água em uma cesta"; e foi buscar um balde novinho. O velho disse: "Eu não quero um balde de água, eu quero uma cesta de água. Você pode fazer isso, só não está se esforçando o suficiente"; e saiu pela porta para ver o menino tentar novamente. Neste ponto, o garoto sabia que era impossível cumprir a tarefa, mas queria mostrar ao seu avô que mesmo que ele corresse o mais rápido que pudesse a água vazaria antes de chegar na casa. O menino encheu o cesto de água mais uma vez e correu muito, muito, mas quando chegou onde seu seu avô estava o cesto se encontrava quase vazio, novamente.

Sem fôlego, ele disse, "Veja, vovô, é inútil!"

"Então você acha que é inútil?" O velho disse: "Olhe para a cesta." O menino olhou para a cesta e, pela primeira vez, percebeu que ela parecia diferente. Em vez de uma cesta de carvão suja pelo muito uso, estava limpa.

"Meu neto, isto é o que acontece quando você lê a Bíblia. Você pode não entender ou lembrar de tudo, mas, quando lê-la, ela vai mudar você de dentro para fora."

Assim é a obra de Deus em nossas vidas. Trabalhando para nos mudar de dentro para fora, e, lentamente, nos transformando à imagem de seu filho.

Dedique tempo para ler uma porção da palavra de Deus a cada dia. Ore para que Ele use esta leitura com o fim de transformar o seu coração e mente para ele.

"De que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho? Observando-o segundo a tua palavra". (Sl 119:9)

Autor desconhecido

Tradução: José Cassais

10.5.10

Quem Tem o Filho, Tem Tudo

Um homem muito rico e seu filho amavam colecionar obras raras de arte. Eles tinham de tudo em sua coleção, pinturas de valor inestimável, desde Picasso à Rafael. Muitas vezes eles sentavam-se juntos para admirar as grandes obras de arte.

Quando um conflito eclodiu, envolvendo o seu país, o filho foi para a guerra. Ele era muito corajoso, e morreu numa batalha enquanto salvava outro soldado. O pai foi notificado e entristeceu-se profundamente pela perda de seu único filho.

Cerca de um mês mais tarde, pouco antes do Natal, ouviu-se uma batida na porta. Um jovem estava parado na frente da casa com um pacote grande nas mãos. Ele disse: "O senhor não me conhece, mas eu sou o soldado por quem seu filho deu a vida. Ele salvou muitas vidas naquele dia, e estava me carregando, ferido, para a segurança, quando uma bala o atingiu no coração, e ele morreu instantaneamente. Ele sempre falou sobre você e seu amor pela arte.

O rapaz estendeu seu pacote. "Eu sei que isso não é muito. Eu não sou realmente um grande artista, mas acho que seu filho gostaria que você recebesse isto".

O pai abriu o pacote. Era um retrato de seu filho, pintado pelo jovem. Ele se assustou com a forma como o soldado havia capturado a personalidade de seu filho naquela pintura. O pai estava tão atraído pela expressão dos olhos do filho na pintura, que os seus próprios olhos se encheram de lágrimas. Ele agradeceu ao jovem, e ofereceu pagar-lhe o quadro.

"Oh, não senhor, eu mesmo nunca poderia pagar o que seu filho fez por mim. É um presente".

O pai pendurou o retrato sobre a lareira. Todos os visitantes que vinham à sua casa ele levava para ver o retrato de seu filho, antes mesmo de mostrar-lhes qualquer uma das outras grandes obras que havia coletado.

Aquele homem morreu alguns meses mais tarde. Foi, então, realizado um grande leilão das pinturas que colecionara. Muitas pessoas influentes estavam reunidas, animadas de ver as grandes obras e ter a oportunidade de comprar uma para sua coleção. Na plataforma estava o retrato do filho.

O leiloeiro bateu o martelo. "Começaremos o leilão com a pintura do filho. Quem pagará mais por essa pintura?"

Houve um grande silêncio. Então, uma voz no fundo da sala, gritou. "Queremos ver as pinturas famosas. Deixe esta de lado." Mas o leiloeiro persistiu: "Alguém pagará algo por essa pintura? Quem vai iniciar a licitação? 100 dólares, 200 dólares?"

Outra voz gritou, com raiva: "Não viemos aqui para ver essa pintura. Viemos para ver os Van Goghs, os Rembrandts. Avance para os lances reais!" Contudo, ainda assim, o leiloeiro continuou: "O filho! O filho! Quem levará o filho?"

Finalmente, uma voz se fez ouvir lá do fundo da sala. Era o jardineiro do homem e de seu filho. "Eu darei 10 dólares pela pintura." Sendo um homem pobre, era tudo o que podia pagar. "Temos 10 dólares, quem pagará 20 dólares?" disse o leiloeiro.

"Dê a ele por 10 dólares! Vamos ver os mestres."

"10 dólares é o lance atual, ninguém faz um lance de 20 dólares?"

A multidão estava ficando irritada. Eles não queriam a pintura do filho. Eles queriam trazer mais investimentos para as suas coleções.

O leiloeiro bateu o martelo. "Dou-lhe uma, duas, vendido por 10 dólares!" Um homem sentado na segunda fila gritou. "Agora vamos continuar com a coleção!"

O leiloeiro baixou o martelo. "Lamento, o leilão acabou."

"E as outras pinturas?"

"Sinto muito. Quando fui chamado para conduzir este leilão, disseram-me um segredo que havia sido estipulado no testamento. Eu não tinha permissão para revelar nada até este exato momento. Somente a pintura do filho é que seria leiloada. Quem comprasse essa pintura herdaria toda a propriedade, incluindo as pinturas famosas. O homem que levou o filho fica com tudo!"

Deus deu seu filho, dois mil anos atrás, para morrer numa cruz cruel. Assim como o leiloeiro, Sua mensagem de hoje é: "O filho, o filho, quem levará o filho?" Porque, você sabe, quem tem o Filho fica com tudo.

"Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." João 3:1

Woodrow Kroll

Tradutor: José Cassais