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16.8.14

Deus Existe? O Que e Quem é Ele? - Parte 4


4 - Prova Psicológica da Existência de Deus 2


O argumento ontológico que baseia a prova da existência de Deus na perfeição de sua ideia foi primeiramente apresentado por S. Anselmo (1035-1109). Diz, em suma, que a existência deve ser necessariamente atribuída a ideia (essência) de um ser perfeitíssimo. Descartes foi um pouco além, afirmando que o fato de existir na mente humana a ideia de um ser perfeitíssimo só pode ser o resultado da existência deste próprio ser. O problema com estes raciocínios, apesar de estar contida neles uma grande verdade, começa com as próprias palavras com que são colocados: “argumento” ontológico ou “prova” ontológica. Quanto à esta última palavra, “prova”, seria válida se tivesse o sentido de uma experiência, mas não como o resultado da construção de um silogismo, pois a verdadeira prova da existência de Deus só pode brotar naturalmente de uma experiência na consciência do indivíduo. Tal prova pode ser dividida em dois tipos, um deles positivo e o outro negativo. No primeiro tipo, o qual podemos apodar de “prova existencial positiva”, o sujeito da experiência deve examinar-se e ver se consegue pensar em Deus sem que a este pensamento esteja associada à consciência de sua existência. Para a efetividade da experiência não é necessário que a palavra “Deus” seja definida com precisão, porque a simples menção da palavra “Deus” é suficiente para despertar na consciência individual a ideia da substância e essência do ser supremo, e nada mais precisa ser dito a respeito. Portanto, havendo se colocado este pensamento a respeito de Deus, examine-se o indivíduo com objetividade para ver se quando nele pensa não o faz como a um ser existente – da mesma forma como sempre pensa a respeito de si próprio ou de uma pessoa do seu conhecimento particular. Quer dizer, quando alguém pensa objetivamente a respeito de si mesmo é impossível que não esteja convicto da própria existência. Mas se alguém pensar a respeito de si mesmo não objetivamente pode fantasiar que é não-existente – não, porém, sem estar consciente de que tudo não passa de uma fantasia de sua mente. Da mesma forma, pensando não-objetivamente pode-se fantasiar a não-existência de Deus; porém, desde que não se pretenda enganar a si mesmo, sabe-se que se está apenas fingindo. É impossível pensar em Deus da forma mais objetiva sem estar consciente de que ele existe.

A segunda prova pode ser chamada de “prova existencial negativa” e consiste em esforçar-se por pensar em Deus, de forma não-passional, como não existente, observando sempre o critério da objetividade. Verificar-se-á que assim como é impossível que alguém pense a respeito de si mesmo como não-existente, ficando ao mesmo tempo convicto da veracidade deste pensamento, da mesma forma não se pode pensar em Deus como não-existente estando ao mesmo tempo convicto da veracidade deste pensamento, a não ser que se caia na armadilha da passionalidade, o que revela a falsidade da própria convicção. Refiro-me aqui a espécie de passionalidade que é causada em nós por seres vivos que julgamos dotados de inteligência.

Uma terceira prova ainda mais concludente que as duas primeiras é possível, a qual pode ser chamada de “prova existencial definitiva”, mas que possui um único inconveniente, que é o de não poder ser realizada de forma planejada; ou seja, esta prova independe da vontade da pessoa que vai realizá-la – mas tal é, justamente, o seu mérito. As duas provas anteriores se ressentem da dificuldade de se colocar no estado de completa objetividade necessário para que sejam feitas da forma mais adequada, uma vez que o indivíduo se condiciona para realizá-las e nesse condicionamento surge uma oportunidade para o afloramento de preconceitos. Consiste pois esta terceira prova em que alguém procure, num exame criterioso de suas memórias, analisar se cada vez que o pensamento de Deus surgiu em sua mente tal acontecimento esteve associado a um estado de atividade ou de passividade. Constatar-se-á que sempre que se pensou em Deus no passado se o fez de duas maneiras: se de forma ativa, quando estávamos dirigindo os nossos pensamentos de uma maneira consciente, tal acontecimento se deu nas ocasiões em que filosofamos a respeito de sua essência, ou seja, tentando descobrir quais são os seus atributos, e nestas ocasiões sempre nos dirigimos naturalmente a ele como a um ser dotado de existência. Se de outra forma, ou seja, nas vezes em que o pensamento de Deus surgiu espontaneamente na nossa consciência, estivemos sempre dominados pelo sentimento da paixão, o que evidencia que nossas considerações se dirigiam a um ser dotado de existência, uma vez que é impossível ser passional com respeito a uma simples quimera.

Além de examinar suas memórias, o que não é uma coisa fácil para muitas pessoas, o indivíduo que pretende ter certeza a respeito desta questão da existência de Deus, ainda no âmbito desta terceira prova, deve adotar a atitude de examinar o seu estado mental cada vez que, no futuro, o pensamento de Deus surgir espontaneamente na sua consciência. Deve-se adotar este auto-exame nestas ocasiões como uma verdadeira norma de vida – com certeza a mais importante que se pode adotar.

Deus Existe? O Que e Quem é Ele? - Parte 3


3 - Prova Psicológica da Existência de Deus 1


Concluímos, já, duas etapas neste inquérito a respeito da existência de Deus. Em primeiro lugar admitimos que a maior dificuldade para a crença na existência do ser supremo era a admissão mesma da possibilidade de sua existência, o que foi satisfatoriamente resolvido pela constatação de que a possibilidade da nossa própria existência não é menos maravilhosa do que a de dele - sendo que a nossa existência já está dada. Em seguida concluímos que a definição mais apropriada e indispensável de Deus é a que o descreve como aquele que merece ser mais temido entre todos os seres existentes. Além disto também consideramos que para ser o nosso Deus Ele tem de possuir os atributos da consciência e da inteligência pois, no caso contrário, não poderia ser propiciado. Ainda mais, podemos ver agora que este Deus para ser reconhecido como Deus deve ser conhecido por suas manifestações na realidade em que existimos ou ter se dado a conhecer por si mesmo, uma vez que a nossa razão não possui a capacidade de conhecê-lo em seu próprio reino metafísico (devemos isto a Kant). Como poderíamos temê-lo sem dele nada sabermos, e de que maneira ele seria Deus sem ser o objeto principal do nosso temor e serviço? Assim sendo, é impossível acreditar que Deus não se deu a conhecer àqueles para quem ele deveria ser Deus por direito absoluto. Nesse caso seria como se não existisse como deus, pois ele é deus primeiramente para os outros e não para si mesmo. Portanto, o passo seguinte nesta nossa jornada em busca de uma prova concreta da existência de Deus é o de procurarmos indícios da existência patente de um ser que se deu a conhecer com características divinas. Ou, dentre todas as tradições que existem no mundo alegando serem revelações de Deus a seu próprio respeito daquela que o mostra primordialmente como sendo aquele ser para quem o temor é devido acima de todos, de quem a própria essência do seu relacionamento conosco é definida como sendo baseada no temor.

Porém, antes de nos dedicarmos à tarefa de procurar entre as tradições e escrituras religiosas que os homens possuem aquelas que mais se adequem a revelação da natureza essencial de Deus, que é a de poder despertar o temor absoluto, examinemos se é possível, utilizando tão somente a nossa capacidade de raciocínio e deixando de lado as conclusões kantianas a respeito das limitações de nossa razão pura nesta questão, conseguir obter alguma prova da Sua existência. Aventuremo-nos no mar metafísico, nem que seja em imaginação. Pois se a razão humana não dispõe de nem mesmo uma jangada para esta viagem a imaginação pode construir um transatlântico que se aventure bem além das ondas ameaçadoras que cercam a praia de nossa pequena ilha.

De acordo com a definição do filósofo Espinosa (1632-1677) é causa de si aquilo cuja essência envolve a existência, cuja natureza não pode ser concebida senão como existente. Ou seja, dada certa definição é impossível que a coisa definida por ela possa não existir. Este pode ser considerado o raciocínio mais perspicaz dos filósofos que se dedicaram a esta questão nos tempos mais recentes da história da humanidade. É também o ponto de partida (ou de chegada) das considerações de Descartes (1596-1650) a respeito da existência de Deus (ele existe porque eu penso nele como coisa existente e não consigo pensá-lo desta forma a partir, somente, de minhas próprias conjecturas). Os homens mais inteligentes do mundo não puderam negar a existência desta prova, entre eles o próprio Descartes, e também Espinosa. O primeiro afirmou que a existência de Deus era inseparável de sua essência, porque chegou a conclusão de que não podia pensar nele a não ser como coisa existente. Tal pensamento estava além de suas possibilidades. Já o segundo, simplesmente aceitou o que o primeiro comprovara, colocando a conclusão deste como pedra fundamental do seu sistema filosófico. Mas este não é um conceito simples - o de só se poder pensar em Deus como coisa existente - o qual possa ser apreendido apenas com o intelecto, porque necessita do apoio da convicção a qual repousa no sentimento e, principalmente, porque não temos um argumento bom o bastante para determinar quando uma definição é suficiente para que o seu objeto seja considerado existente a partir dela mesma. Quem tentar apreender o significado deste conceito somente com o auxílio de seu intelecto terá todos os motivos para afirmar que ele não prova nada.

Vamos, portanto, examinar de forma mais acurada o argumento cartesiano conforme ele está exposto na sua forma mais elaborada no livro “Princípios da Filosofia”, com as seguintes palavras: “Quando nós refletimos um pouco mais nas variadas idéias que estão em nós é fácil perceber que não há muita diferença entre elas quando as consideramos simplesmente como certos modos de pensar, mas que elas são completamente diferentes quando consideradas em referência aos objetos que representam; e que suas causas devem ser tão mais perfeitas em acordo com o grau de perfeição objetiva nelas contida. (Nota de pé de página: “tanto quanto o que elas representam de seu objeto tem mais perfeição”). Porque não há diferença entre este e o caso de uma pessoa que tem a ideia de uma máquina na construção da qual grande perícia é demonstrada, nas quais circunstâncias nós temos o direito de inquirir como ele chegou a ter tal ideia, se foi, por exemplo, por ter visto em algum lugar uma máquina semelhante construída por um outro, ou se ele foi tão acuradamente instruído nas ciências mecânicas ou é dotado de tal força de gênio que foi capaz de inventar a máquina por si mesmo, sem ter visto em algum lugar qualquer coisa semelhante; pois toda a genialidade a qual está contida na ideia objetivamente apenas, como se estivesse em uma pintura, deve existir, pelo menos, em sua primeira e principal causa, qualquer que seja, não apenas objetiva ou representativamente, mas em verdade formalmente ou eminentemente.” E também: “Quando nós temos uma ideia de qualquer máquina na qual grande perícia é demonstrada, usualmente nós sabemos com bastante precisão a maneira como a obtemos, e como não podemos nem mesmo relembrar quando a ideia que nós temos de um Deus foi comunicada por ele à nós, vendo que tal ideia esteve sempre em nossas mentes, é então ainda necessário que devamos continuar nossa pesquisa e inquirirmos de nosso autor, possuindo, como é o caso, a ideia das infinitas perfeições de Deus. Porque isto é evidente no mais alto grau, pela luz natural, que aquele que conhece alguém mais perfeito do que si mesmo não é a origem de seu próprio ser, uma vez que, se fosse, teria concedido à si mesmo todas as perfeições que conhece; e que, consequentemente, deve buscar suas origens em nenhum outro ser além daquele que possui em si mesmo todas as perfeições, ou seja, em Deus.” Vemos, por aí, que Descartes comparou a ideia que temos de Deus com a ideia de uma máquina mais complexa que qualquer uma que pudéssemos nós mesmos projetar (por nos faltarem as habilidades necessárias para tanto), e que tal ideia deveria portanto ter se originado em uma máquina construída por uma outra pessoa e a qual tivéssemos visto em algum lugar, querendo dizer com isto que o fato de termos em nós a ideia de um ser infinitamente mais perfeito do que nós mesmos, o qual nunca pudemos contemplar diretamente, é uma prova cabal de que esta ideia foi implantada em nós por este mesmo ser.

A grande dificuldade dos que consideram a validade do argumento teológico cartesiano talvez tenha partido do próprio Descartes quando tentou apresentar a sua prova como se fosse lógica – uma vez que tal argumento não é lógico, mas existencial. A própria expressão “argumento teológico” (theos = deus) encerra em si esta noção enganosa, de tentar provar a existência divina utilizando as ferramentas da lógica (indo de encontro às conclusões kantianas). Porém, para aquele que por si mesmo faz a experiência de se examinar quando pensa em Deus é impossível negar, como verificou Descartes, que ele exista. Esta é verdadeiramente uma experiência à que não se deve furtar o mais extremado dos auto proclamados ateus. Porém, para que ela seja realizada de forma eficiente é preciso que aquele que se dispõe a colocá-la em prática esteja revestido da maior honestidade intelectual. É necessário que todos os preconceitos sejam colocados de lado – principalmente a descrença absoluta, a priori, na existência do ser supremo. Assim como o próprio Descartes, por amor da verdade, considerou como necessário colocar em dúvida a convicção de sua própria existência, é necessário que se coloque em dúvida, para aqueles que têm tal coisa como certa, a inexistência de Deus. Conceda-se à inexistência de Deus o benefício da dúvida, da mesma forma como Descartes concedeu-o a sua própria existência. Quem não tem coragem de ir a tal ponto não possui consistência intelectual para negar a existência de Deus. Segundo o filósofo, a pessoa que se auto examinar a respeito deste assunto estando revestido da honestidade e da boa vontade necessárias não poderá deixar de afirmar que Deus existe, pois irá constatar claramente que lhe é impossível pensar em Deus separado de Sua existência.

A verdade é que até mesmo para um observador externo e imparcial da experiência dos ateus a respeito de Deus fica claro, pelas suas reações, que se dirigem a ele como a um ser existente – pois é impossível que alguém experimente emoções passionais a respeito de algo que não existe. Passionalidade implica necessariamente a existência de um sujeito a respeito de quem se é passivo. Que os ateus se exponham ao teste de tentar pensar na existência de Deus de forma não passional, admitindo que o mínimo resquício de passionalidade associado ao pensamento de Deus depõe a favor de Sua existência e expõe um preconceito e uma inclinação tendenciosa naquele que deseja negá-la. Esta é, então, e sempre será, a prova psicológica mais forte da existência de Deus: que sempre se pensa nele ou à ele se dirige como alguém que existe, e só é possível negar a sua existência indo contra este sentimento irrefutável.

Costuma-se pensar no ensinamento de Descartes a respeito da existência divina como sendo uma espécie de prova lógica montada a maneira de um silogismo: “penso em Deus como um ser existente, logo, Deus existe.” Porém, o significado verdadeiro do pensamento do filósofo se expressa da seguinte forma, psicológica: “Não consigo pensar em Deus como ser inexistente, logo ele existe.” Descartes, na verdade, mostrou aos homens o caminho para a certeza da existência de Deus através de um exame de consciência imparcial e criterioso. Mas para os que têm o hábito da dúvida, ou para aqueles que têm motivos para desejarem afirmar a não existência de Deus, seria preciso que se despojassem de suas motivações ocultas e adquirissem o costume da imparcialidade; em suma, que adotassem de forma irrestrita a norma socrática de se auto conhecerem. Portanto, a prova maior da existência de Deus é, a princípio, puramente existencial e psicológica. E é uma prova irrefutável para todos os que se auto examinarem de forma honesta.

Além disto, no instante mesmo em que alguém se dá conta que é impossível que pense em Deus dissociado da sua existência, também adquire a certeza da impossibilidade puramente racional desta convicção, pois sabe que não chegou a ela por meio da razão pura, através de um raciocínio qualquer com forma silogística. Uma vez que surge dentro de nós esta consciência da existência de Deus ela só pode ter sido implantada em nossa mente como ideia pura ou ter chegado a nós de forma intuitiva através das muitas provas que encontramos na natureza ao nosso redor, as quais, embora sem declararem objetivamente haverem sido produzidas por Deus, atestam claramente à nossa consciência não poderem existir independentes da sua ação ou criação. Estas são as duas únicas fontes primárias possíveis do reconhecimento psicológico da existência de Deus.

Ainda, como todos os homens que alcançam a maturidade tem tido várias oportunidades no transcurso de suas existências de dirigirem o seu pensamento ao ser supremo e constatarem que, quando isto acontece, não deixam nunca de fazê-lo como se referindo a um ser que possui a existência (o que se depreende da passionalidade de suas reações naqueles momentos), os homens nesta condição só podem negar a existência de Deus motivados por um desejo de viverem como se ele não existisse. Porém tal desejo só começa a existir a partir do momento em que este Deus se torna conhecido para eles em sua própria substância mais particularizada, ou seja, em sua personalidade, trazendo exigências que se chocam com aquilo que os homens querem ou não fazer. Neste momento as alternativas para os homens desobedientes são: 1) empenhar-se por negar ou desacreditar a veracidade dos testemunhos na criação deste Deus revelado, enganando-se a si mesmos; 2) negar a própria revelação da existência de Deus em suas consciências, o “cogito Dei, ergo Deos est” (o que se classifica como ateísmo); 3) não negar a revelação de suas consciências, mas sim a revelação legítima de Deus, procurando estabelecer um Deus de acordo com os seus próprios desejos, ou a partir das tradições da humanidade (religião natural), ou a partir de seus próprios conceitos (religião filosófica).

15.8.14

Deus Existe? O Que e Quem é Ele? - Parte 1


1 - Deus Existe? É Possível ou Impossível que Deus Exista?



a) Dificuldade que os ateus têm para aceitarem a existência de Deus

A grande dificuldade que a maioria das pessoas que não crêem tem com respeito a aceitar a existência de um Deus pessoal, um Deus que tenha uma personalidade e que possa fazer escolhas (não um Deus impessoal, sem personalidade e que não age por livre-arbítrio), não se refere simplesmente ao fato de se poder saber com certeza se ele existe ou não, mas repousa na dúvida que elas têm relativamente a possibilidade mesma da sua existência. As pessoas descrentes não concedem, em primeira instância, que seja racionalmente admissível a possibilidade da existência de um Deus assim, pois consideram tal fato como sendo maravilhoso demais para ser inserido dentro da realidade que reconhecem como normal. Mas estas mesmas pessoas concedem com relativa facilidade a possibilidade da existência de um Deus impessoal, alguma espécie de força universal ou DNA cósmico, da qual se originam todos os fenômenos da existência e que permeia tudo o que existe. Neste texto estaremos tratando de provar a possibilidade da existência de um Deus pessoal, um Deus que pensa de modo particular e cria o universo de acordo com os seus desígnios pessoais. Uma vez que se admitisse não haver nada de impossível ou miraculoso na possibilidade da sua existência, uma vez que não se pudesse negar esta possibilidade, tal fato tornaria a crença nele uma simples questão de analisar as evidências que temos para admiti-la. Ninguém ousaria criticar alguém que estivesse procurando elefantes se eles não fossem conhecidos porém houvesse relatos a respeito de sua existência, uma vez que ninguém se atreveria a negar a simples possibilidade de que eles existissem.

b) A existência existe e é eterna

Para nós seres humanos o grande milagre é a própria existência, e além disto assombra-nos, dentro dela, a existência de um ser que pensa – nós mesmos. Não há nada que nos pareça mais maravilhoso do que este fato, embora raramente dediquemos ao assunto atenção plena para lhe investigarmos os motivos. E isto é assim porque sentimos ser a questão muito complexa. Tal fato permanece, no entanto, continuamente presente na consciência do ser humano como a mais metafísica e irrespondível das perguntas: como é possível algo existir? Considerando-se que para tudo deve haver uma causa, e uma vez que toda causa é anterior ao seu efeito ou conseqüência, qual seria a causa da própria existência, uma vez que anteriormente a ela nada poderia existir? Se a existência veio a ser em um universo onde absolutamente não existia anteriormente então tal acontecimento pode ser considerado como o maior dos milagres. Porém a existência não pode ter vindo a ser através de um milagre, pois o próprio milagre consiste num acontecimento que ultrapassa a ordem natural, e onde nada existe também não existe uma ordem natural para ser ultrapassada. Nem mesmo como um milagre a existência poderia ter vindo a ser onde anteriormente nada havia. Ex nihilo nihil. Do nada, nada vem. Quase não podemos suportar a conclusão que destas premissas se extrai: que a existência sempre esteve presente. Tal pensamento nos parece mais maravilhoso do que aquele que se interroga sobre a própria origem de uma existência já dada. Devemos então aceitar que há alguma coisa que existe sem causa e que sempre esteve presente, ou seja, a própria existência? Esta é uma pergunta que só pode ser respondida afirmativamente, do contrário nos defrontaríamos com a necessidade de provar a nós mesmos a nossa própria inexistência. Mas aquilo que existe sem causa devemos também conceder a imortalidade, pois o que existe sem causa e sempre existiu como poderia deixar de existir? Logo, tem sentido o título deste parágrafo: a existência existe e é eterna.

Eis, portanto, a razão de nosso assombro.

c) A consciência coexiste com a matéria e a energia

Quando nos referimos ao milagre da existência não estamos focalizando aquilo que reconhecemos como os seres vivos, menos ainda os seres dotados de consciência ou inteligência, mas referimo-nos a existência em si mesma, em oposição ao nada. Porque algo deveria existir? Somente o vazio, o nada absoluto, o não-ser, a ausência de tempo e espaço, o inconcebível a não ser como conceito tem direito a serem imaginados quando nos dispomos a considerar o que deveria ou não haver. Mas se admitimos que algo sempre existiu, ainda que no estado mais primitivo possível (ou seja, a matéria bruta e/ou a própria energia), então, a partir desta admissão, podemos desenvolver quantas teorias quisermos para derivar deste substrato o surgimento da vida e da consciência – mas só podemos fazê-lo por que já estamos aqui. Porém, a verdade é que não se pode derivar a consciência da matéria bruta energizada, por mais teorias que se inventem – aqui não existe nenhum elo perdido. Logo, além de matéria e energia devemos colocar junto, já de saída, a própria consciência. Estes três itens, portanto, sempre existiram: matéria, energia e consciência.

d) A vida biológica é posterior à consciência

Uma vez que não se pode derivar a consciência da matéria e da energia, mas a enxergamos sempre associada à vida que conhecemos, pensamos ser a vida no nível biológico a matriz da consciência, o que nos leva a buscar uma teoria sobre o surgimento deste tipo de vida associado com o surgimento da própria consciência. Ou seja, acreditamos que vida biológica e consciência são fenômenos concomitantes ou, no máximo, que a consciência não passa de um epifenômeno da vida material. A conseqüência desta maneira de ver é o surgimento de uma elaborada teoria da evolução não apenas dos organismos físicos mas da própria consciência. Deve-se ter em mente que a teoria da evolução de Darwin é bem mais ambiciosa do que se percebe, por misturar o conceito de evolução da vida biológica com o conceito de evolução da consciência, e preocupando-se em demonstrar a validade do primeiro faz com que acreditemos que o segundo seja automaticamente validado cada vez que atinge algum de seus objetivos para aquele. Portanto a teoria de Darwin não é como geralmente se pensa simplesmente uma teoria a respeito da evolução de organismos biológicos, mas resulta ser muito mais ambiciosa, pois procura explicar o surgimento e a evolução da própria consciência! O sofisma ou paralogismo embutido nesta teoria consiste em fazer-nos crer que a consciência é um efeito do surgimento de formas simples de vida que evolui concomitantemente com os organismos, e que o encontro de elos entre as formas inferiores e superiores destes organismos supre os elos que faltam entre as formas superiores e inferiores de consciência. Uma teoria da evolução verdadeira deveria mostrar a vida biológica surgindo da consciência, e não o contrário.

Porém a verdade é que aquilo que chamamos de "vida," ou seja, o que se apresenta como organismos vivos, é apenas uma funcionalidade da consciência. A própria vida em si mesma é apenas consciência pura.

e) Prova irrefutável da possibilidade da existência divina

A matéria está presente, a energia está presente, e muito mais do que isto: somos seres amplamente conscientes e racionais. Se a coisa é assim e se a própria existência já dada é o fato mais assombroso possível, então as formas que esta existência possa assumir já não parecem, em comparação, tão maravilhosas ou inadmissíveis. Num universo onde é irrefutável a existência de algo eterno que sempre foi e sempre será e onde coexistem a vida e a consciência, nada que se refira as formas desta existência se mostrará para a nossa mente como impossível. Logo, se eu existo Deus também pode existir; a prova da possibilidade da existência divina é a minha própria existência. A grande diferença entre mim e Deus não é por a sua existência ser mais maravilhosa do que a minha, mas é apenas uma diferença de grau. E sabemos que as diferenças de grau entre os seres que existem podem ser tremendas, como aquelas que há entre os seres humanos e os vírus mais simples. Formas de vida como estas, que nunca tiveram consciência da existência dos seres humanos, se acaso pudessem pensar nisto teriam direito de colocar em dúvida esta possibilidade? Pois somos superiores a elas apenas em grau de complexidade, tanto biológica quanto psicológica (sem entrar na questão da existência do espírito humano). Se há esta diferença tão grande de grau entre os seres humanos de um lado e os vírus e bactérias de outro, mas ainda assim ambos têm direito a existência, porque então duvidar da possibilidade da existência de um ser que está, metaforicamente falando, para a dos homens como a deste está para a das formas mais simples de vida?

A importância desta constatação (que a existência de Deus é irrefutavelmente possível) reside no fato que para a grande maioria das pessoas que não crêem em Deus o maior empecilho para a aquisição desta crença - puramente psicológico - é que elas não conseguem conceber esta possibilidade. Mas a verdade é que para chegarmos a tanto deveríamos duvidar primeiramente da possibilidade da nossa própria existência. Por este motivo Descartes, após provar para si mesmo irrefutavelmente a sua própria existência, como uma conseqüência necessária desta conclusão, ocupou-se em provar logicamente a existência de Deus. Já que não podemos duvidar da nossa própria existência, pois no instante mesmo em que a tanto nos atrevemos se nos apresenta o silogismo cartesiano (penso, logo existo), transferimos então aquela duvida para a existência de Deus. Logo, duvidar da existência de Deus não é, neste sentido de desconfiança do maravilhoso, mais do que duvidar de nossa própria existência, uma maneira de manter a suspeita e o assombro sem precisar enfrentar a inevitabilidade do “cogito, ergo sum”.


Fim da primeira parte